Recomeços

As nuvens tapavam o sol que nascia tímido, naquela manhã fria.
O vento que se fazia sentir em sua face trazia-lhe novos sopros.

Se sentara olhando a serra.
E silenciava.
Sentia a grandeza pulsar dentro de si.
A sua força era tão esplêndida quanto o que observava em seu redor.
Como se ela e a natureza selvagem fossem uma só.
Ancoradas pelas raízes, unidas pelas folhagens que subiam por seu corpo, e protegidas pelo céu nublado que trazia novas chuvas.

Acreditava que a vida poderia ser repleta de novos ciclos.
Novos recomeços.
Novas esperanças.

Se sentia presente. Pertencente ao momento e a todos aqueles outros que a levaram até ali.
Como tinha chegado?
Que caminho tinha trilhado?
Que serras, que vales, que rios?

Ao caminhar por entre subidas e descidas verdejantes, viajava pelos recantos de sua alma.
Quais eram os medos que ainda pernoitavam?
O que queria deixar para trás?
Quais os desejos, os apegos, os desamores?

Porque caía e tropeçava tantas vezes nessa procura?
O que a segurava ao passado?

Que rochedos se moviam?
Que caminho queria que esvoaçassem suas asas?
Que paixões, quantos sorrisos, quais amores?

Pela trilha, escutava a sintonia de seus pensamentos com o cantar dos pássaros que sobrevoavam.
Sonhava em como seria ter aquelas asas esvoaçantes, capazes de transportá-la para onde quisesse ir.
Sem amarras. Sem medos.
Sem tempestades, raios ou trovões.
Na luz.
Com Amor pelo que foi. Pelo que era.
Pelo que era de verdade.

Se despia de todas as máscaras, e em cada pedra curvilínea, deixara cair o que não queria que a acompanhasse.
Saboreava cada sabor e cada cheiro.
Saboreava cada som, cada olhar, cada toque.

No topo, se completou.
Encheu os pulmões de ar.
Não queria estar em nenhum outro lugar senão ali.
Sentiu o dançar da vida percorrer suas veias. Preenchendo, movimentando e balançando cada canto, cada recanto, cada detalhe de seu corpo.

Soube que o embalo do tempo está nos compassos dessa dança.
Entre o ir e vir.
E que por vezes regressar é apenas um início, de uma bela e nova jornada pela serra.
Pelo mundo.
Dentro e fora.

M.♥

* Escrevo o que surge aqui dentro. E decidi partilhá-lo com o Mundo. Que essas palavras possam te inspirar e chegar ao mais profundo recanto do teu Ser *

Se quiser partilhar, por favor colocar créditos e a fonte.

Mulher

Se encostava no calor do abraço.
No conforto dos segundos congelados no tempo.
E Se deixava ficar.
Sentindo o mar lavar seu barco sujo das águas escuras.

Queria jogar para longe palavras não ditas.
Pensamentos pesados.
Que a aprisionavam a um tempo gasto.
A um tempo distante.
Alheio e conhecido.

Deixava de querer ser.
Só era.
Era só o que restava.
O que sentia.
Era ela.
Ali.
Inteira.
Rasgando, inspirando e se encontrando.

Sua respiração circulava, e fazia rodopiar cada poro.
Acompanhava cada som.
Cada tocar do sino
E Cada “sim”.

Se sentia rainha no topo daquela torre.
Sentia seu brilho se expandir.
Seu olhar se entrelaçar.
Sentia o céu se abrir.
Azul e profundo.
Como ela.

De pedra em pedra, seus pés flutuavam.
Sua mente bailava lentamente por entre movimentos longos e sinuosos.
Por entre novas luzes, fortes contrastes e delicados sorrisos.
Era sonho?
Que dimensão?
Qual antepassado?

Entre o cá e lá, decidira a entrega de um coração desejante.
De um coração que se movia profundamente por novos (re)encontros.
Por novos significados.
Novos encantos.

Assim se esvaziava.
E renascia.
De novo.
Mulher.

M.♥

Esse teu jeito
Quem és tu?
Quem és tu que chegas e que balanças no bater das folhas de outono.
Que arrematas meu corpo.
Minha alma.
Minha dança.
Meu existir.

Quem és tu que rasgas meus vidros frágeis.
Que levantas o véu translúcido que cobre meu mar.
Que quebras meus medos trancados com chaves de prata.
E minha doce ilusão.

Me dá tua mão.
Entrelaça teus dedos nos meus.
Me aquece como chama de fogo.
E conta-me tudo o que eu não saiba.
Mostra-me o teu mundo.
As tuas galáxias.
O teu existir.

Quando chegares, acorda meu corpo dormente da dor gasta.
Percorre devagarinho cada cor, cada traço ondulante, cada círculo amargo e cada linha, sem fim.
Termina meu desenho.
Risca e rabisca minhas costas.
É lá que descansam minhas asas.

Depois.. diz-me baixinho quem somos.
O que fomos noutro despertar.
Que rei.. que rainha...
E o que seremos? ... pouco importa

E se um dia não quiseres mais ficar, fecharei meus olhos para te ver voar.
Te pedirei que sejas mensageiro da história de nós dois.
Que sopres aos ceús esse teu jeito de me olhar.
Esse teu jeito de amar.
Esse teu Amor.

M.♥

Um dia
Um dia, ela chegará até às nuvens.
Leves, singelas e esvoaçantes.
Um dia, fará de uma delas seu reino.
Sentirá seu cheiro de jasmim.
Sua textura macia de seda.
Verá suas formas circundantes apaziguarem sua alma.
Um dia, dançará sobre elas, com os pés descalços e livres.
Com o corpo reluzente de azul magia.
Vinda do mar. Vinda do céu. Vinda da terra.
Será infinita.

E quando chegar a noite, se deitará olhando as estrelas brilharem.
Elas desenharão um caminho de luz rumo ao seu centro.
Lhe mostrarão todos os segredos por desvendar.
Lhe sorrirão e cantarão cânticos de Amor.
Explodirão numa chuva dourada sobre sua face adormecida.
Sobre seus cabelos escuros.
E suas curvas delicadas.

Quando acordar, verá de novo o claro do dia.
E ao fechar lentamente suas pálpebras, olhará como tudo se transformou.
Deixará cair pétalas de rosa do alto.
Para que saibam onde se achou.
Onde quis que brotassem suas sementes.
E onde quis descansar, por agora, suas asas.

Um dia, ela saberá que o seu castelo é feito de algodão.
Que suas flores crescem sempre mais acima do que ela consegue imaginar.
E que suas fortes raízes pousam em qualquer floresta do seu mapa.

Um dia, ela encontrará esse lugar.
Junto ao peito.

 

M.♥